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Zona
Autónoma Provisória
AUTOR
Hakim Bey
TÍTULO ORIGINAL
Temporary Autonomous Zone
Anti-©1999
Discordia! Edições
Apartado 2354, 4700 Braga
discordia@mail.pt
***
“…
porém, desta vez, venho como o vitorioso Dioniso, que transformará o
mundo num feriado permanente… não que eu tenha muito tempo…”
-
Nietzche (na sua última carta “louca” a Cosima Wagner)
UTOPIAS
PIRATAS
Os
vagabundos do mar e corsários do século XVIII criaram uma “rede de informação”
que percorria o planeta: ainda que primitiva e originariamente dedicada
a negócios sujos, a rede funcionava admiravelmente. Espalhadas pelo
globo estavam ilhas, esconderijos remotos onde os navios se podiam abastecer
de água e outras provisões, onde os espólios de ataques se podiam trocar
tanto por artigos de luxo como por bens de primeira necessidade. Algumas
destas ilhas sustentavam “comunidades intencionais”, mini-sociedades
que viviam resoluta e conscientemente fora do amplexo da lei, mesmo
que a sua vida alegre fosse curta.
Há algum tempo atrás andei a pesquisar material acessório sobre pirataria,
esperando encontrar algum estudo sério sobre estes enclaves — aparentemente
nenhum historiador achou este tópico digno de análise (William Burroughs
já o mencionou, bem como o falecido anarquista Inglês Larry Law, mas
nunca se conduziu nenhum estudo sistemático). Voltei às fontes iniciais
e desenvolvi a minha própria teoria, sobre a qual discutirei alguns
aspectos neste ensaio. Chamei a estas sociedades “Utopias Piratas”.
Recentemente, Bruce Sterling, um dos expoentes da ficção científica
CyberPunk, publicou um romance localizado num futuro próximo que se
baseia na seguinte premissa: a decadência dos sistemas políticos levar-nos-á
a uma proliferação descentralizada de experiências sociais: gigantescas
corporações geridas pelos seus trabalhadores, enclaves independentes
dedicados à “pirataria de dados”, enclaves eco-social-democratas, enclaves
onde o trabalho foi abolido , zonas anarquistas livres, etc. A economia
de informação que sustenta esta diversidade é a Rede; os enclaves (tal
como o título do livro) são Ilhas na Rede.
Os Assassinos medievais fundaram um “Estado” que consistia numa rede
de vales remotos e castelos, todos separados por milhares de quilómetros.
Estrategicamente invulnerável a qualquer invasão, cujas ligações se
efectuavam pelo fluxo de informação proveniente de agentes secretos,
estava guerra com todos os governos e era dedicado apenas ao conhecimento.
A tecnologia moderna, culminando no satélite-espião, transforma este
género de autonomia num sonho romântico. Não haver mais ilhas piratas!
No futuro, esta mesma tecnologia, liberta de todo o controlo político,
poderia tornar possível todo um mundo de zonas autónomas. Por enquanto
este conceito não é mais que ficção científica — especulação pura.
Estaremos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca experimentar
a autonomia, nunca passear numa terra governada apenas pela liberdade,
nem que seja por momentos? Estaremos limitados apenas a nostalgias do
passado ou do futuro? Teremos que esperar até que o mundo inteiro se
liberte do controlo político para que (nem que seja) um de nós possa
afirmar um conhecimento da liberdade? A lógica e a emoção unem-se para
condenar tais suposições. A razão postula que ninguém pode lutar por
aquilo que não conhece; e o coração revolta-se ao imaginar um universo
tão cruel que permita perpetrar tais injustiças na nossa geração humana.
Dizer “Não serei livre até que todos os seres humanos (ou criaturas
com entendimento) o sejam” não é mais que ceder a um torpor abençoado,
abdicar da nossa humanidade, definirmo-nos como derrotados.
Creio que, ao efectuarmos extrapolações a partir de histórias passadas
e futuras sobre “ilhas na Rede”, podemos colher provas de que um certo
tipo de “enclave livre” não só é possível na nossa época como também
existe. Todas as minhas pesquisas e especulações se cristalizam no conceito
da ZONA AUTÓNOMA PROVISÓRIA (a partir daqui referida pela sigla ZAP).
Apesar da síntese que faz do meu pensamento, não pretendo que a ZAP
seja tomada por mais do que um ensaio (“tentativa”), uma sugestão, quase
um delírio poético. Apesar do entusiasmo por vezes exorbitante da minha
linguagem, não tento construir um dogma político. De facto, evito deliberadamente
definir a ZAP — contorno o assunto, disparando feixes de luz exploratória.
Por fim, a ZAP explica-se a si própria. Se a expressão se tornasse algo
corrente seria compreendida sem dificuldade… compreendida em acção.
AGUARDANDO A REVOLUÇÃO
Como é que o “mundo às avessas” consegue sempre endireitar-se? Porque
é que a reacção segue sempre a revolução, como temporadas no inferno?
Um Levantamento, ou a forma mais próxima do Latim, Insurreição, são
palavras usadas pelos historiadores para rotular revoluções falhadas
— movimentos que não coincidem com a curva esperada, a consensual revolução,
reacção, traição, a criação de um Estado mais forte e ainda mais opressivo
— é o girar da roda, uma e outra vez, ao seu ponto mais alto: a bota
militar esmagando a face humana para sempre.
Ao estabelecer uma recusa da curva, o Levantamento sugere a possibilidade
de um movimento exterior à espiral Hegeliana desse “progresso” que subrepticiamente
não é senão um ciclo fechado. Surgo — subir, erguer. Insurgo — levantar-se
a si mesmo. Uma prova de força. Um adeus a essa paródia infeliz da roda
Kármica, futilidade revolucionária exibida pela História. A palavra
de ordem “Revolução!”, de toque de alarme, converteu-se em toxina, uma
armadilha maligna e pseudo-Gnóstica do destino, um pesadelo em que não
importa quanto lutemos, porque nunca escaparemos a essa Era malévola,
esse íncubo, o Estado, um a seguir ao outro, todos os “céus” governados
por mais um anjo maléfico.
Se a História é “Tempo”, como se pretende, então o levantamento é um
momento que transcende o tempo e viola as leis da História. Se o Estado
é História, como reclama, então a insurreição é o momento proibido,
uma negação imperdoável da dialéctica — trepando pelo poste acima para
sair do buraco fumarento, uma manobra xamânica executada num ângulo
que parece “contradizer” o Universo. A História diz que a Revolução
atinge “permanência”, ou pelo menos duração, enquanto que o levantamento
é temporário. Desta forma, um levantamento é algo que atinge um auge,
um extremo em comparação com os padrões habituais da consciência/experiência.
Tal como os Festivais, os levantamentos não são uma coisa de todos os
dias – de outro modo, não transcenderiam a normalidade. Contudo, tais
momentos de intensidade dão forma e significado a toda uma vida. O xamã
regressa, porque não se pode ficar empoleirado no telhado para sempre,
mas entretanto as coisas mudaram, houve deslocações e integração, ocorreu
a diferença.
Podem bem dizer que isto é a sabedoria do desespero. Então e o sonho
anarquista, o Não-Estado, a Comuna, a Zona Autónoma com duração, uma
sociedade livre, uma cultura livre? Teremos que abandonar essa esperança
a troco de algum acte gratuit existencialista? Não interessa mudar a
consciência, interessa mudar o mundo.
Aceito esta crítica, é justa. Tenho contudo duas coisas a acrescentar;
em primeiro lugar, a revolução ainda não chegou a lado nenhum no que
toca à consecução destes sonhos. A visão ganha vida na altura do levantamento
— mas assim que triunfa a “Revolução” e regressa o Estado, o sonho e
o ideal já foram traídos. Não abdiquei da esperança nem deixei de esperar
que ocorram mudanças — mas desconfio da palavra revolução. Em segundo
lugar, mesmo que proponhamos em vez da atitude revolucionária uma ideia
de insurreição que floresce espontaneamente como cultura anarquista,
a nossa situação histórica não é propícia a tão vasta empresa. Nada,
a não ser um martírio fútil, adviria de uma colisão frontal com o Estado
em fase terminal, o Estado macrocapitalista ultra-informado, o império
do espectáculo e do simulacro. Ele tem as armas apontadas para nós,
ao passo que as nossas pistolinhas não encontram outro alvo que não
uma histeria, uma vacuidade rígida, um espectro capaz de sufocar qualquer
faísca num ectoplasma informativo, uma sociedade rendida, governada
pela imagem do polícia e o olho absorvente do ecrã televisivo.
Resumindo, não apresentamos a ZAP como fim em si própria, substituta
de todas as outras formas de organização, tácticas, objectivos. Recomendamo-la
porque pode providenciar as qualidades enriquecedoras que encontramos
no levantamento sem necessariamente levar à violência e ao martírio.
A ZAP é como um levantamento que não entra em confronto directo com
o Estado, uma operação guerrilheira que liberta uma área (física, temporal,
imaginária) e em seguida dissolve-se para se materializar noutra altura,
noutro lugar, antes que o Estado possa esmagá-la. Como o Estado está
mais preocupado com simulacros do que com verdadeira substância, a ZAP
pode “ocupar” estas áreas clandestinamente e prosseguir nos seus propósitos
festivos durante algum tempo em paz relativa. Talvez algumas ZAPs pequeninas
tenham durado vidas inteiras por ninguém reparar nelas, como enclaves
de saloios – porque nunca houve interacção com o Espectáculo, nunca
emergiram dessa vida real que os agentes da Simulação não conseguem
ver.
A Babilónia toma essas abstracções por realidades; é precisamente dentro
desta margem de erro que a ZAP pode existir. Dar à luz uma ZAP pode
exigir tácticas de violência e de defesa, mas a sua maior força está
na sua invisibilidade — o Estado não pode reconhecê-la porque a História
nunca a definiu. Assim que a ZAP for categorizada (representada, mediada)
deve desaparecer, e desaparecerá, deixando para trás uma casca vazia,
para aparecer noutro lado qualquer, invisível uma vez mais, porque o
Espectáculo não sabe defini-la com os seus termos limitados. A Zap é
assim uma estratégia perfeita para uma era em que o Estado é omnipresente
e todo-poderoso e ao mesmo tempo cheio de falhas e zonas obscuras.
Como a ZAP é um microcosmos desse “sonho anarquista” que é uma cultura
livre, não posso imaginar melhor táctica para começarmos a perseguir
esse sonho enquanto nos fazemos experimentar alguns dos seus benefícios
aqui e agora.
Em suma, o realismo exige que desistamos não só de esperar pela “Revolução”
como também que deixemos de a querer. O “Levantamento”, sim — sempre
que possível e mesmo que haja violência. Os “espasmos” do Estado serão
“Espectaculares”, mas na maioria dos casos a melhor política, a mais
radical, será a recusa de participar na violência espectacular, efectuando
uma retirada da área do Espectáculo, do simulacro, desaparecer.
A ZAP é um acampamento de guerrilheiros ontológicos: atacam e fogem.
A tribo toda anda sempre em corropio, mesmo que a tribo seja composta
de dados informáticos na rede. A ZAP deve ser capaz de se defender;
só que tanto o “ataque” como a “defesa” devem, se possível, evitar a
imitação da violência do Estado, que não tem significado nenhum. O ataque
desencadeia-se sobre as estruturas do controlo, essencialmente sobre
ideias; a defesa é a invisibilidade, que é uma arte marcial, e a “invulnerabilidade”,
uma “arte oculta” entre as artes marciais. A Máquina de Guerra Nómada
conquista sem que ninguém perceba e deixa o local antes de se ajustar
o mapa à nova realidade. Quanto ao futuro — só os autónomos podem planear
a autonomia, organizá-la, criá-la. É uma prova de força. O primeiro
passo tem semelhanças com o satori — a percepção de que a ZAP começa
com um simples acto de consciência.
A PSICOTOPOLOGIA DA VIDA QUOTIDIANA
O conceito da ZAP surge em primeiro lugar duma crítica da Revolução
e dum apreço pela Insurreição. A primeira afirma que a última é um falhanço;
porém, achamos que o Levantamento é uma possibilidade bem mais interessante,
partindo do padrão de uma psicologia da libertação, do que todas as
revoluções “bem sucedidas” da burguesia, dos comunistas, dos fascistas,
etc.
A Segunda força generativa que sustenta a ZAP desenvolve-se a partir
desse acontecimento histórico a que chamo “o fecho do mapa”. O último
pedaço de terra não reclamado por qualquer Estado-Nação foi comido em
1899. O nosso é o primeiro século sem terra incognita, sem uma fronteira.
A Nacionalidade é o mais alto princípio no governo do mundo — não há
um penedo nos mares do Sul que ainda esteja aberto, não há um vale remoto,
nem mesmo a lua ou os planetas estão livres. Esta é a apoteose dos gangsters
do território. Não há um metro quadrado da Terra sem polícias ou impostos...
em teoria.
O “mapa” é uma grelha politica abstracta, uma vigarice gigantesca mantida
pelo condicionamento do cavalo que segue a cenoura (condicionamento
criado pelo Estado, que é um perito); até que o mapa se converta em
território para a maioria das pessoas — acaba-se a “Ilha das Tartarugas”,
que passa a ser “Estados Unidos”. Ainda assim, como o mapa é uma abstracção,
não pode cobrir a terra com a precisão de 1:1. Nas complexidades fractais
da verdadeira geografia o mapa só vislumbra grelhas dimensionais. Escondidas,
imensidades inexploradas escapam às sondas. O mapa não é exacto porque
o mapa não pode ser exacto.
Assim, fica fechada a porta à Revolução, mas não à insurgência. Por
enquanto, concentrar-nos-emos em emergências súbitas de energia, procurando
não nos emaranhar nas malhas das soluções permanentes.
E o próprio mapa está fechado, mas a zona autónoma está em aberto. Metaforicamente,
desdobra-se nas dimensões fractais que a Cartografia do Domínio não
vê. Aqui devemos introduzir o conceito de psicotopologia ( e -topografia)
como uma ciência alternativa a essa que o Estado tem ao reconhecer o
terreno e fazer mapas, perpetuando um “imperialismo psíquico”.
Só a piscotopografia pode desenhar mapas da realidade à escala 1:1,
porque só a mente humana fornece complexidade suficiente para moldar
o real. Mas um mapa nessa escala não pode “controlar” o seu território
porque é virtualmente idêntico ao seu território. Apenas pode ser utilizado
para sugerir, num certo sentido, apontar para certas características.
Estamos à procura de “espaços” (geográficos, culturais, sociais, imaginários)
com potencial bastante para florescerem como zonas autónomas — e procuramos
tempos em que estes espaços estejam relativamente abertos, quer por
negligência do Estado quer por terem escapado à atenção dos cartógrafos;
não importa realmente a razão. A Psicotopologia é a arte de procurar
uma ZAP em potencial, como a arte do vedor (adivinho que pressente a
água com um ramo de árvore bifurcado).
Os fim da Revolução e do mapa não é mais que a fonte negativa da ZAP;
ainda resta muito para ser dito sobre as inspirações positivas. A reacção
só por si não consegue fornecer a energia necessária para “manifestar”
uma ZAP. Um Levantamento tem que servir para qualquer coisa.
1. Em primeiro lugar, podemos falar de uma antropologia natural da ZAP.
A família é a
unidade-base da sociedade consensual, mas não da ZAP (“Famílias! Como
as detesto! Açambarcadoras do amor!” — Gide). A família nuclear, com
as suas “neuras edipianas” inerentes, parece ter sido inventada no Neolítico,
como uma resposta à “revolução agrícola” com a sua escassez e hierarquia
impostas. O modelo do Paleolítico é ao mesmo tempo mais essencial e
mais radical: o bando. As sociedades típicas de caçadores/recolectores,
nómadas ou semi-nómadas, são constituídas por bandos de cerca de 50
pessoas. No interior de sociedades tribais maiores a estrutura do bando
é ocupada pelos clãs, ou por grupúsculos como sociedades secretas/iniciáticas,
sociedades caçadoras ou guerreiras, sociedades baseadas no sexo, “repúblicas
infantis”, e por aí fora. Se a família nuclear é produto da escassez
(daí o açambarcamento), o bando é resultado da abundância – tendo a
generosidade por resultado. A família é fechada: pela genética, pela
posse masculina da mulher e das crianças, pela totalidade hierárquica
da sociedade agrícola/industrial. O bando está aberto — não a toda a
gente, certamente, mas a quem sinta afinidades com ele, os iniciados
que juraram preservar laços de amor. O bando não é parte de uma hierarquia
maior, é antes integrante de um padrão horizontal gerado por costumes,
parentescos alargados, contratos e alianças, afinidades espirituais,
etc. (mesmo agora, as sociedades Índias da América preservam certos
aspectos desta estrutura).
Na nossa sociedade da Simulação pós-Espectacular, há forças operantes
— a maioria invisíveis — tentando destruir a família para ressuscitar
o bando. Abalos na estrutura do Trabalho ressoam na “estabilidade” arruinada
da unidade-lar e da unidade-família. O “bando” de cada um, hoje em dia,
inclui amigos, ex-esposos/as e amantes, pessoas que conhecemos em empregos
e reuniões diferentes, grupos afins, redes de interesses especiais,
redes de correspondência postal, etc. A família nuclear torna-se cada
vez mais uma armadilha, um buraco na estrada cultural, uma implosão
neurótica e secreta de átomos divididos – e a contra-estratégia mais
óbvia emerge espontaneamente na redescoberta quase inconsciente da possibilidade
mais arcaica e também mais pós-industrial do bando.
2. A ZAP como festival. Stephen Peral Andrews ofereceu como imagem de
uma sociedade
anarquista o jantar de convívio, no qual todas as estruturas da autoridade
se dissolvem na convivialidade e no festejo (ver Apêndice C). Aqui podemos
também invocar Fourier com o seu conceito dos sentidos como bases do
desenvolvimento social — “toque-rotina” e “gastrosofia”, e o seu elogio
às implicações esquecidas do paladar e do olfacto. Os antigos conceitos
de Jubileu e Saturnália têm a sua origem numa intuição de que certos
acontecimentos se colocam fora do alcance do “tempo profano”, a vara
de medição do Estado e da História. Estes feriados ocupavam literalmente
fissuras no calendário — intervalos intercalares. Por volta da Idade
Média, perto de um terço do ano era para feriados. Talvez os motins
contra a alteração do calendário tivessem menos a ver com os “onze dias
a menos” do que com a percepção de que a ciência imperial conspirava
para fechar estas fissuras no calendário, nas quais se tinha acumulado
a liberdade das pessoas — um coup d´état, uma cartografia compulsiva
do ano, a captura do próprio tempo, transformando o cosmos orgânico
num Universo-relógio. A morte do festival.
Os participantes na insurreição não podem deixar de notar os seus aspectos
festivos, mesmo no meio do perigo, do risco, da luta armada. O Levantamento
é como uma Saturnália que se libertou (ou que foi forçada a desaparecer)
do seu intervalo intercalar e agora tem toda a liberdade de aparecer
como e quando lhe apetecer. Liberto de tempo e lugar, ainda assim possui
um faro para a maturidade dos acontecimentos, e uma afinidade com o
genius loci. A ciência da psicotopologia indica o “fluir de forças”
e os “locais de poder” (para nos apropriarmos de algumas metáforas ocultistas)
que localizam a ZAP no espaço e no tempo, ou que pelo menos nos ajudam
a definir a sua relação com o tempo e o local.
Os Media convidam-nos a “celebrar os momentos da nossa vida” com a unificação
falsificada do bem de consumo e do espectáculo, o famoso Não-Acontecimento
de pura representação. Como resposta a esta obscenidade temos, por um
lado, o espectro da recusa (explorado pelos Situacionistas, por John
Zerzan, Bob Black, etc.) – por outro lado, a emergência de uma cultura
festiva retirada e até escondida daqueles que pretendem gerir o nosso
lazer. “Fight for the right to party” (“Luta pelo direito a festejar”)
não é realmente uma paródia das lutas radicais mas uma nova manifestação
das mesmas, bem apropriada a uma era que oferece televisões e telefones
como meio de “alcançar e tocar” outros seres humanos, maneiras de se
estar presente...
Pearl Andrews tinha razão: o jantar de convívio é já “a semente da nova
sociedade que toma forma no casulo da velha” (. A “reunião tribal” ao
estilo da década de 60, o conclave florestal de eco-sabotadores, o Beltane
idílico dos neo-pagãos, as conferências anarquistas, os círculos gay
… festas no Harlem de 1920, casas nocturnas, banquetes, pic-nics libertários
de outrora — devemo-nos dar conta de que estes espaços já são, de certa
forma, zonas libertas, ou pelo menos ZAPs em potência. Quer esteja aberta
a um grupo restrito de amigos, como o jantar, ou milhares de convivas,
como numa Rave, a festa é sempre “aberta” porque não é “ordenada”; pode
ser planificada, mas senão acontecer por acaso, é um falhanço. A espontaneidade
é um elemento crucial.
A essência da festa: cara a cara, um grupo de seres humanos conjugam
esforços para atingir desejos comuns, quer sejam desejos de boa comida
e alegria, dança, conversas, as artes da vida, quer seja o desejo erótico,
ou o desejo de criar uma obra de arte comunal, ou chegar a um extâse
bem-aventurado — resumindo, uma “união de egoístas”, como disse Stirner,
na sua forma mais simples — ou então, nas palavras de Kropotkine, um
impulso biológico básico de ajuda mútua (aqui também devíamos mencionar
a “economia do excesso” de Bataille e a sua teoria da cultura do potlatch
).
3. De importância vital para a expressão da realidade ZAP é o conceito
de nomadismo
psíquico (ou como lhe chamamos por piada — “cosmopolitanismo sem raízes”).
Aspectos deste fenómeno foram já discutidos por Deleuze e Guattari em
Nomadology and the War Machine, por Lyotard em Driftworks e outros autores
na edição sobre o tema do Oásis na publicação Semiotext(e). Usamos o
termo “nomadismo psíquico” em detrimento de “nomadismo urbano”, “nomadologia”,
“trabalho de dispersão (driftwork)”, etc., apenas para que possamos
reunir todas estas ideais num complexo vagamente estruturado, para ser
estudado à luz da aparição da ZAP.
“A Morte de Deus”, que de certo modo funcionou como uma descentralização
do projecto
civilizacional Europeu, gerou uma mundividência multi-perspectivada
e pós-ideológica capaz de se movimentar sem estar presa às suas raízes
entre filosofia e mito tribal, entre ciências da natureza e Taoísmo
— possibilitando a capacidade de ver pela primeira vez como se através
dos olhos de algum insecto dourado, cada faceta mostrando um mundo inteiramente
diferente.
Esta visão foi todavia conquistada por vivermos numa época em que a
velocidade e o “fetichismo do bem de consumo” criaram uma unidade falsa
e tirânica que tende a diluir a diversidade cultural e individual, fazendo
com que um lugar “seja tão bom como outro qualquer.” Este paradoxo cria
“ciganos”, viajantes psíquicos impelidos pelo desejo ou pela curiosidade,
vagabundos com lealdades pouco arreigadas (e verdadeiramente desleais
ao “projecto Europeu”, que perdeu já todo o charme e vitalidade), não
acorrentados a nenhum tempo ou local particulares, procurando diversidade
e aventura… esta descrição não cobre só a classe-X que são os artistas
e intelectuais mas também os trabalhadores migrantes, os refugiados,
os desalojados, os turistas, a cultura das roulottes — e ainda as pessoas
que “viajam” pela Internet, que talvez nunca venham a sair dos seus
quartos (ou aqueles que, como Thoreau, “viajaram muito – em Concord
”); e por fim “toda a gente” está incluída, todos nós, que vivemos num
percurso por automóveis, férias, televisões, livros, filmes, telefones,
mudamos de emprego, de “estilo de vida”, religiões, dietas, etc., etc.
O Nomadismo Psíquico como táctica, aquilo a que Deleuze e Guattari metaforicamente
chamam “a máquina de guerra”, transforma o paradoxo passivo num paradoxo
activo e talvez até “violento”. As últimas agonias e estertores de “Deus”
no seu leito de morte já se fazem ouvir há tanto tempo — materializados
no Capitalismo, no Fascismo e no Comunismo, por exemplo — que ainda
sobra muita “destruição criativa” a empreender por parte de comandos
pós-Bakuninistas e Pós-Nietzcheanos ou apaches (literalmente “inimigos”)
do velho consenso. Estes nómadas praticam a razzia, são corsários, são
um vírus; desejam a ZAP e precisam dela, acampamentos de tendas negras
debaixo das estrelas do deserto, interzonas, oásis secretos, fortificados,
ligados por caravanas em rotas ocultas, pedacinhos de selva e terra-má
“libertados”, zonas de acesso não recomendado , mercados negros, bazares
clandestinos.
Estes nómadas cartografam as suas rotas olhando para estrelas bizarras,
que podem ser cachos luminos de informação no ciberespaço, ou alucinações,
quem sabe. Abram sobre a mesa um mapa da terra; sobreponham um mapa
das mudanças políticas; por cima desse, um mapa de Rede, especialmente
da Contra-Rede com típico ênfase no tráfico de informação e logística
clandestinas — e finalmente, cobrindo tudo, o mapa 1:1 da imaginação
criativa, a estética, os valores. A grelha resultante anima-se com explosões
energéticas inesperadas, coágulos de luz, túneis secretos, surpresas.
A REDE E A TEIA
O
próximo factor que contribui para a ZAP é tão vasto e ambíguo que precisa
de uma secção só para si. Já falámos da Rede, que se pode definir como
a totalidade da transferência de informação e comunicação. Algumas destas
transferências são privilegiadas e exclusivas de certas elites, o que
dá à Rede um aspecto hierárquico. Outras transacções estão ao alcance
de todos — por isso a Rede também tem um aspecto horizontal, não-hierárquico.
Dados Militares e dos Serviços Secretos estão muito controlados, como
a informação pertinente a operações bancárias e monetárias. Mas na maior
parte dos casos, o telefone, o serviço postal, as bases de dados públicas,
estão à mão de todos e de qualquer um. Por isso, no interior da Rede
começou a emergir uma sombria Contra-Rede a que chamaremos a Teia —
como se a Rede fosse uma rede de pesca e a Teia um monte de teias de
aranha nos interstícios e nas falhas da Rede. Em geral usaremos o termo
Teia para designar a estrutura alternativa/horizontal de transmissão
de dados, a rede não-hierárquica, reservando o termo Contra-Rede para
indicar o uso clandestino, ilegal e rebelde da Teia, incluindo a pirataria
informática e outras formas de sugar os recursos da Rede. Rede, Teia
e Contra-Rede são partes do mesmo complexo, do mesmo padrão — as suas
fronteiras intersectam-se muitas vezes. Estas palavras não definem áreas,
sugerem tendências.(A título de digressão: antes de condenarem a Teia
ou Contra-Rede pela sua natureza “parasitária”, o que nunca pode ser
uma verdadeira força revolucionária, perguntem-se a si próprios em que
é que consiste a “produção” na Era do Simulacro. Qual é a “classe produtiva”?
Talvez sejam forçados a admitir que estes termos perderam o significado.
Em qualquer caso, as respostas a tais perguntas são tão complexas que
a ZAP tende a ignorá-las, aproveitando só aquilo que pode usar. “A Cultura
é a nossa Natura” e nós somos as gralhas que roubam objectos brilhantes
para os nossos ninhos, os caçadores-recolectores do mundo CommTech.)
As formas presentes da Teia não-oficial são ainda primitivas: redes
marginais de fanzines, BBS, software pirata, hacking, brincadeiras com
redes telefónicas, alguma influência na palavra escrita e na rádio,
quando não há quase nenhuma nos outros media — nada de estações televisivas,
nada de satélites, fibras ópticas, tv por cabo, etc., etc. Contudo,
a própria Rede apresenta um padrão progressivo (e não estático) de relações
entre sujeitos/utilizadores e objectos/dados. A natureza destas relações
foi estudada profundamente, desde McLuhan até Virilio. Seriam necessárias
páginas e páginas para “provar” o que neste momento já “toda a gente
sabe”. Em vez de refrescar a memória de todos, interessa-me descobrir
como é que estas relações evolutivas sugerem modos de implementação
da ZAP.
A ZAP tem um lugar temporário no espaço e no tempo, o que não a torna
menos real. O que é óbvio é que ela também deve ter um lugar na Teia,
sendo este lugar algo diferente, i.e., virtual, não é imediato, é instantâneo.
A Teia não só oferece apoio logístico à ZAP, como também a ajuda a realizar-se;
grosso modo, pode dizer-se que a ZAP existe no espaço da informação
como existe no “mundo real”. A Teia pode compactar grandes porções de
tempo, bem como de dados, num espaço infinitesimal. Já notámos que a
ZAP, por ser temporária, está obrigada a prescindir das vantagens de
uma liberdade duradoura e de morada fixa. Mas a Teia pode parcialmente
substituir a duração e a morada — pode informar a ZAP desde o momento
da concepção, com vastas quantidades de tempo e espaço compactados e
subtilizados como informação.
Neste momento da evolução da Rede, considerando a nossa exigência do
“face-a-face”, do sensual, devemos considerar a Teia um sistema de suporte,
capaz de assegurar o seguimento de informação de uma ZAP a outra, de
defender a ZAP, tornando-a invisível ou agressiva, conforme a situação
exija. Mas mais do que isso, se a ZAP for um acampamento nómada, a Teia
é que oferece os épicos, as canções, as genealogias e lendas da tribo;
serve para delinear as rotas secretas das caravanas e os caminhos que
sustentam o fluxo da economia tribal; até contém algumas das estradas
a seguir, alguns dos sonhos que se transformam em sinais e augúrios.
A Teia não precisa de nenhum computador para existir. Informação passada
de boca em boca, correio, fanzines, “árvores telefónicas”, e outras
coisas do género já bastam para construir uma rede informativa. A chave
não é o tipo de tecnologia que se usa, mas sim a abertura e horizontalidade
da estrutura. Ainda assim, a ideia da Rede implica o uso de computadores.
Na imaginação da ficção científica a Rede encaminha-se para a condição
do ciberespaço (como em Tron ou Neuromante ) e para a pseudo-telepatia
da “realidade virtual”. Como fã da cena CyberPunk não posso senão visualizar
o “hacking da realidade” a desempenhar um papel capital na criação de
ZAPs. Tal como Sterling ou Gibson parto do princípio de que a Rede oficial
nunca conseguirá abolir a Teia ou a Contra-Rede — que a pirataria de
dados, as transmissões não autorizadas e o livre trânsito de informação
nunca entrarão numa Era Glacial. (De facto, e tal como eu a entendo,
a teoria do Caos prevê a impossibilidade de um sistema de controlo universal.)
Contudo, esquecendo agora tudo o que seja mera especulação sobre o futuro,
há uma questão muito séria a resolver acerca da Teia e da tecnologia
que esta requer. A ZAP deseja, acima de tudo, evitar a mediação, experimentar
a sua existência imediatamente. A própria essência da ZAP é “peito-a-peito”,
como dizem os Sufis , ou face-a-face. Mas: a essência da Teia é a mediação.
As máquinas são aqui uns embaixadores para nós — a carne é irrelevante,
excepto como terminal, com todas as conotações sinistras que o termo
sugere.
A ZAP encontra mais facilmente o seu espaço próprio adoptando duas atitudes
aparentemente contraditórias face à alta tecnologia e a sua apoteose,
a Rede: (1) a posição a que chamaremos Quinto Estado/Posição Ultra-Verde,
Neo-Paleolítica e Pós-Situacionista, que se apresenta como argumento
Luddita contra a mediação e logo contra a Rede; e (2) O Utopismo CyberPunk,
o Futuro-Libertário, o Hacker da Realidade e seus aliados que vêem a
Rede como um passo necessário na evolução, assumindo que os efeitos
nocivos da mediação venham a ser vencidos — pelos menos assim que estiverem
libertos os meios de produção.
A ZAP concorda com os Hackers porque quer existir (pelo menos em parte)
através da Rede, até através da mediação da Rede. Mas também concorda
com os Verdes porque retém uma intensa percepção de si mesma como corpo
e não sente senão repulsa pela Ciber-gnose, a tentativa de transcender
o corpo através da instantaneidade e da simulação. A ZAP tende a ver
a dicotomia Tecnologia/Anti-Tecnologia como um debate tortuoso, como
todas as outras dicotomias, nas quais os opostos se revelam como falsificações
ou até alucinações causadas pela semântica. Isto é uma forma de dizer
que a ZAP quer viver neste mundo, não na ideia de outro mundo, um mundo
visionário nascido de uma unidade falsa (tudo verde ou tudo metal) que
não satisfaz mais do que um raciocínio circular (como o ilustrou Alice,
“compota ontem e compota amanhã; mas nunca hoje”).
A ZAP é utópica no sentido em que visualiza uma intensificação da vida
quotidiana, ou como poderiam ter dito os Surrealistas, a penetração
da vida pelo Maravilhoso. Claro que não pode ser utópica no sentido
literal da palavra, que é lugar nenhum ou lugar chamado Lugarnenhum
. A ZAP está algures por aí. Coloca-se na intersecção de muitas forças,
como um poder pagão qualquer — no meio de misteriosos trilhos visíveis
apenas ao adepto em pedaços de terreno sem nenhuma ligação aparente,
na paisagem, em fluxos de ar, de água, de animais. Mas as linhas não
estão gravadas no tempo e no espaço. Algumas delas só existem no interior
da Teia, mesmo que também intersectem locais e momentos existentes.
Talvez algumas destas linhas sejam “extraordinárias” por não existir
convenção que as quantifique. Estas linhas poderiam ser melhor estudadas
à luz da ciência do Caos do que à luz da sociologia, da estatística,
da economia, etc. Os padrões de poder que precipitam o nascimento da
ZAP têm qualquer coisa em comum com os caóticos “magnetismos estranhos”
que existem, por assim dizer, entre dimensões.
A ZAP, dada a sua natureza, aproveita todos os meios de se criar — torna-se
realidade tão depressa numa gruta como numa cidade no Espaço – mas,
acima de tudo, viverá, agora ou muito brevemente (não importa se a forma
é suspeita ou precária), de forma espontânea, sem contemplações para
a ideologia ou mesmo para a anti-ideologia. Usará o computador porque
o computador existe, mas também virá a usar poderes tão profundamente
desligados da alienação ou da simulação que lhe garantem um certo paleolitismo
psíquico, um espírito Xamânico-primordial que infecte a própria Rede
(este é, na minha leitura, o verdadeiro significado do CyberPunk). Porque
a ZAP é uma intensificação, um excedente, um excesso, um potlatch, é
viver em vez de meramente sobreviver, não pode ser definida nem pela
Tecnologia nem pela Anti-tecnologia. Sincera e contraditória no seu
desprezo pelos vis diabretes, deseja existir a despeito da perfeição,
até ao fim.
No trabalho de Mandelbrot, na sua expressão gráfica num computador,
vemos, num universo fractal, mapas que estão incrustados e de facto
até escondidos dentro de outros, mapas dentro de mapas dentro de mapas
e por aí adiante, até aos limites do poder computacional. Para que serve
este mapa de certo modo desenhado numa escala 1:1 na sua relação com
a dimensão fractal? Que mais podemos fazer com ele para além de admirar
a sua psicadélica elegância?
Se imaginássemos um mapa da informação — uma projecção cartográfica
da Rede na sua totalidade — incluiríamos nele características do caos,
que já começaram a despontar, por exemplo, nas operações complexas de
processamento paralelo, nas telecomunicações, nas transferências de
“dinheiro” electrónico, vírus, hacking guerrilheiro e por aí fora. Cada
uma destas áreas de caos podia ser representada topograficamente em
trabalhos semelhantes ao de Mandelbrot, estando as “penínsulas” tão
emaranhadas na complexidade do mapa que parecessem desaparecer. Esta
“escrita” — partes da qual desaparecem, outras apagam-se a si próprias
— representa o processo pelo qual a Rede já está caída em desgraça,
incompleta na sua auto-imagem, em última análise, incontrolável. Por
outras palavras, estes mapas semelhantes ao de Mandelbrot talvez revelassem
alguma utilidade ao “delinear” a emergência da Contra-Rede como processo
caótico, uma “evolução criativa”, para usar a expressão de Prigogine.
Isto serve como metáfora explicativa da interacção da ZAP com a Rede
— uma interacção que resulta no desaparecimento de informação. Todas
as “catástrofes” na Rede representam uma recarga das baterias da Teia,
a Contra-Rede. A Rede será prejudicada pelo Caos, a Teia multiplicar-se-á.
Quer através da simples pirataria de dados, quer pelo desenvolvimento
mais complexo da harmonia com o caos, o hacker da Teia, o cibernético
da ZAP encontrará maneiras de tirar proveito de distúrbios, crashes
e avarias na Rede (maneiras de transformar a “entropia” em informação).
Como bricoleur, caçador furtivo de lascas de informação, contrabandista,
chantagista, e quem sabe, ciberterrorista, o hacker da ZAP trabalhará
a favor da evolução de ligações fractais clandestinas.
Estas ligações, bem como a informação diferente que flui entre elas,
formarão “tomadas de parede” onde a ZAP se irá ligar para começar a
existir — como se fôssemos roubar electricidade ao monopólio para iluminar
uma casa ocupada.
Assim, a Teia, para poder produzir as condições necessárias ao nascimento
de uma ZAP, será um parasita na Rede; mas também podemos descrever esta
estratégia nestes termos: uma tentativa de construção de uma Rede alternativa
e autónoma, “livre”, não mais parasitária, uma base estável para uma
“nova sociedade emergindo do casulo da velha.”
A Contra-Rede e a Zap podem ser consideradas, em termos práticos, fins
em si mesmas: embora na teoria possam ser vistas como formas de luta
por uma realidade diferente.
Tendo dito isto, é de admitir que restam algumas reservas sobre os computadores,
algumas perguntas sem resposta, especialmente acerca do computador pessoal.
A História das redes informáticas, das BBSs e de várias experiências
de electro-democracia tem ilustrado uma cultura do passatempo e pouco
mais. Muitos anarquistas e libertários têm grande fé no PC como arma
de libertação e de auto-libertação — só que não há provas disso, não
há liberdade palpável.
Tenho pouco interesse na emergência hipotética duma classe de indivíduos
empreendedores, patrões de si mesmos, especializados no processamento
de palavras e dados, capazes de manter uma indústria semi-artesanal
ou de executar trabalhos maçadores por encomenda para várias corporações
e burocracias. Para mais, não preciso de percepção extra-sensorial para
prever a criação da “subclasse” desta classe: uma espécie de Yuppietariado:
domésticas, por exemplo, que para garantir um rendimento extra, transformem
as suas casas em electro-oficinas clandestinas, pequenas tiranias do
Trabalho em que o patrão é uma rede informática.
Também não estou impressionado pela informação e serviços que circulam
pelas redes “radicais” de hoje em dia. Algures, dizem-me, existe uma
“economia da informação”. Talvez seja assim; mas a informação que se
oferece nos BBSs parece consistir inteiramente em conversas de fúteis
e de tarados por máquinas. Será isto uma economia? Não será só um passatempo
para entusiastas? Concordo se me disserem que os PCs criaram uma revolução
idêntica à do surgimento da imprensa — e admito que os trabalhos marginais
se estão a desenvolver na Rede - até posso falar com seis pessoas ao
telefone ao mesmo tempo. Mas que diferença faz isto tudo na minha vida
quotidiana?
Francamente, eu já tinha muitos dados para enriquecer as minhas percepções,
com livros, filmes, televisão, teatro, telefones, correios, estados
alterados de consciência, e por aí adiante. Preciso realmente de um
PC para obter mais dados desse género? Vocês oferecem-me informação
secreta? Bem… reconheço uma certa tentação — mas quero segredos maravilhosos,
não quero só números de telefone que não estão na lista ou tretas sobre
polícias e políticos. Acima de tudo quero que os computadores me forneçam
informação ligada a bens reais — as coisas boas da vida. E já que acuso
os hackers e os frequentadores dos BBSs de indefinição intelectual irritante,
devo descer à terra das barrocas nuvens da Teoria e da Crítica para
explicar o que quero dizer com “bens reais”.
Vamos assumir que por razões políticas e pessoais eu desejo boa comida,
comida melhor do que aquela que me é oferecida pelo Capitalismo – comida
impoluta, ainda abençoada com aromas fortes e naturais. Para complicar
tudo imaginemos que aquilo que quero é ilegal nos Estados Unidos — leite
por pasteurizar, ou o requintadíssimo fruto Cubano mamey, que não pode
ser exportado para os Estados Unidos enquanto está fresco; tem sementes
alucinogénicas, segundo me contam. Não sou um fazendeiro. Façamos de
conta que sou um importador de perfumes raros e afrodisíacos, e para
tornar a cena mais perigosa vou assumir que a maior parte do meu stock
é ilegal. Talvez eu só queira trocar processamento de texto por nabos
biológicos, e recuso-me a declarar a transacção ao IRS (a lei exige-o,
acreditem ou não). Ou então, talvez queira encontrar-me com outros seres
humanos para actos sexuais consensuais mas ilegais na mesma (já se tentou,
mas todas as BBSs ligadas ao sexo puro e duro foram detectadas e fechadas;
de que nos serve um underground com péssima segurança?). Resumindo,
partamos do princípio de que já estou cheio até aos cabelos de informação
pura e simples, a alma da máquina. Na vossa opinião, os computadores
já deviam ser capazes de gratificar os meus desejos de comida, sexo
e fuga aos impostos. Então o que é que está mal? Porque é que ainda
não aconteceu nada?
A ZAP ocorreu, ainda ocorre, e há-de ocorrer com ou sem computadores,
no entanto, para que atinja o máximo do seu potencial, deverá procurar
ser mais uma “Ilha na Rede” do que uma combustão espontânea. A Rede,
ou melhor, a Contra-Rede, assume a promessa de um aspecto integral da
ZAP, uma adição que multiplique o seu potencial, um “salto quântico”
(estranhamente, esta expressão veio a significar um grande salto) de
complexidade e sentido. A ZAP deve agora existir num mundo de puro espaço,
o mundo dos sentidos. Liminar e mesmo evanescente, a ZAP deve combinar
informação e desejo para cumprir a sua aventura (a sua “ocorrência”),
para se expandir até às fronteiras do seu destino, para se saturar com
o seu próprio devir.
Talvez a escola Neo-Paleolítica esteja correcta ao afirmar que todas
as formas de alienação e mediação devem ser abandonadas para que atinjamos
os nossos objectivos – ou talvez a verdadeira anarquia seja plausível
somente no Espaço Exterior, como asseguram alguns Futuro-Libertários.
Mas a ZAP pouco se importa com o “foi”, com o “há-de ser”. Interessam-lhe
resultados, ataques bem sucedidos à realidade do consenso, escaladas
aos píncaros de uma vida mais intensa e mais abundante. Se não se pode
utilizar o computador neste projecto, então o computador terá de ser
vencido.
A minha intuição sugere-me todavia que a Contra-Rede já começou a existir,
talvez já exista mesmo — só não posso prová-lo. Baseei a teoria da ZAP
principalmente nesta intuição. Claro que a Teia também implica redes
não computacionais de intercâmbio tais como o mercado negro… mas o potencial
completo da informação não-hierárquica leva logicamente ao computador
como ferramenta par excellence. Agora só espero que os hackers provem
que tenho razão. Onde estão os meus nabos?
“IDOS PARA CROATAN”
Não
desejamos definir a ZAP ou elaborar dogmas sobre como deve ser criada.
Afirmamos que já foi criada, sê-lo-á, está a ser criada. Por isso mesmo
seria de maior interesse olhar para algumas ZAPs passadas e presentes,
e especular sobre manifestações futuras; evocando alguns protótipos
podemos medir o alcance potencial do complexo e quem sabe até obter
um vislumbre de um “arquétipo”. Em vez de tentar algum género de demonstração
enciclopédica, vamos antes mandar uns tiros ao acaso, será um mosaico
de visões momentâneas, começando muito arbitrariamente com os sécs.16-17
e a colonização do Novo Mundo.
A abertura do “novo” mundo foi concebida desde o princípio como uma
operação ocultista. O mago John Dee, conselheiro espiritual de Isabel
I, parece ter inventado a ideia de “imperialismo mágico”, com que infectou
toda uma geração. Halkyut e Raleigh caíram sob o seu feitiço, e Raleigh
usou os seus laços com a “Escola da Noite” – um conselho de pensadores
avançados, aristocratas e iluminados — para propagandear a necessidade
de explorar, de colonizar e fazer mapas. A Tempestade é um trabalho
de propaganda a favor da nova ideologia, e a colónia de Roanoke foi
a sua primeira experiência.
A visão Alquímica do Novo Mundo associava-o à matéria-prima ou hyle,
o “estado da Natureza”, a inocência e a possibilidade total (“Virgín-ia”),
ou caos, um devir que o iluminado transmutaria em ouro, isto é, em perfeição
espiritual bem como em abundância material. Mas a visão Alquímica é
informada em parte por um fascínio evidente pelo devir, uma simpatia
traiçoeira pelo devir, um sentimento de esperança em algo que veio a
projectar-se no “Índio”: o Homem no seu estado natural, ainda por corromper
pelos sistemas de governo. Caliban, o homem selvagem, está alojado como
um vírus na máquina do Imperialismo Oculto; a floresta, o animal e os
humanos são investidos à partida com o poder mágico do marginal, do
despresado, do proscrito. Por um lado, Caliban é feio, sendo a natureza
uma “selva ululante” — por outro lado, Caliban é nobre, livre, a natureza
é um Eden. Esta cisão na consciência Europeia é anterior à dicotomia
Clássica/Romântica; está enraízada na Alta Magia da Renascença. A descoberta
da América (o Eldorado, a Fonte da Juventude) cristalizou-a: daí uma
precipitação nos planos de colonização.
Na escola primária ensinaram-nos que as primeiras colónias em Roanoke
falharam; os colonos desapareceram, deixando para trás não mais que
um indecifrável “Idos para Croatan”. Relatos posteriores de Índios de
olhos cinzentos foram considerados lendas. O facto incontestável, insinuava
o manual escolar, era que os Índios tinham massacrado os colonos indefesos.
Contudo, “Croatan” não era um Eldorado qualquer; era o nome de uma tribo
vizinha e amistosa. Aparentemente a colónia só se deslocou da costa
para o Grande Pântano Lúgubre para se integrar na tribo. Os Índios de
olhos cinzentos existiam – ainda existem, e chamam-se Croatans a si
próprios. Então — a primeiríssima colónia no Novo Mundo decidiu renunciar
ao seu contrato com Prospero (Dee/Raleigh/Empire) e foi-se com os homens
selvagens, com Caliban. Saíram de cena. Tornaram-se “Índios”, “Nativos”,
escolheram o Caos em vez das misérias assustadoras da servidão aos plutocratas
e intelectuais de Londres.
A América formou-se onde outrora fora a “Ilha das Tartarugas”, e Croatan
ficou na sua psique colectiva. Lá fora, para além da fronteira, o estado
natural (i.e., Estado nenhum) prevalecia — e na consciência dos colonos
havia sempre a escolha subreptícia da vida selvagem, a tentação de desistir
da Igreja, da fazenda, das letras, dos impostos — esses fardos todos
da civilização — e de “ir para Croatan” de um modo ou de outro. Para
mais, sendo a Revolução traída em Inglaterra, primeiro por Cromwell
e em seguida pela Restauração, ondas de protestantes radicais fugiram/foram
deportados para o Novo Mundo (que se tinha agora tornado uma prisão,
um local de exílio). Antinomianistas, Familistas, Quakers, Levellers,
Diggers e Ranters tomavam conhecimento da sombra oculta do mundo selvagem,
acorrendo ao seu chamamento.
Anne Hutchinson e os seus amigos eram tão somente os mais famosos (i.e.
os de mais alta posição) dos Antinomianistas — tiveram o azar de ser
apanhados pela política da Bay Colony — mas existiu claramente uma facção
mais radical do movimento. Os incidentes que Nathaniel Hawthorne relata
no seu conto The Maypole of Merry Mount são totalmente históricos; aparentemente,
os extremistas tinham decidido renunciar à Cristandade e regressar ao
paganismo. Se tivessem tido sucesso numa união completa com os seus
aliados Índios o resultado seria uma Antinomia Céltica/Algonquim, uma
religião sincrética, uma espécie de Santeria Norte-Americana do século
XVII.
Os Sectários encontraram melhores condições para prosperar debaixo das
administrações corruptas das Caraíbas, onde muitos interesses Europeus
rivais tinham deixado muitas ilhas por reclamar. As de Barbados e da
Jamaica em particular devem ter recebido muitos extremistas, e acredito
que influências dos Levellers e dos Ranters tenham contribuído para
a utopia corsária de Tortuga. Aqui, pela primeira vez, e graças a Esquemelin,
podemos com alguma profundidade estudar uma proto-ZAP do Novo Mundo.
Fugindo de horrorosos “benefícios” do Imperialismo tais como a escravatura,
a servidão, o racismo e a intolerância, da morte-em-vida das plantações,
os corsários adoptaram os costumes dos Índios, casaram-se com Caribenhos/as,
aceitaram negros e espanhóis como iguais, rejeitaram todas as nacionalidades,
elegeram os seus capitães democraticamente, e regressaram ao “estado
natural”. Tendo declarado guerra “a todo o mundo”, velejavam para saquear,
seguindo contratos mútuos chamados “Artigos”, sendo estes tão igualitários
que cada membro da tripulação recebia um quinhão igual, recebendo o
capitão apenas 20% a 50% a mais. As chicotadas, bem como qualquer outra
forma de castigo, foram abolidas — as querelas resolviam-se a votos
ou em duelos.
É simplesmente errado ilustrar os piratas como salteadores de estrada
que se fizeram ao mar ou até proto-capitalistas, como fizeram certos
historiadores. Em certo sentido, eles eram “bandidos sociais”, embora
as suas comunidades-base não fossem sociedades agrárias tradicionais
mas “utopias” criadas quase ex nihilo em terra incognita, enclaves de
liberdade total ocupando lugares em branco no mapa.
Após a queda de Tortuga, o ideal Flibusteiro permaneceu vivo durante
a “época dourada” da Pirataria (por volta de 1660—1720), gerando comunidades
de terra firme como Belize, por exemplo, um Estado fundado por piratas.
Então, ao mudar-se o pólo de interesses vários para Madagáscar — uma
ilha que nenhum poder imperial tinha ainda reclamado, governada apenas
por um grupo heterogéneo de reis (chefes) nativos ansiosos por firmar
alianças com os Piratas — a Utopia Pirata atingiu o auge.
O relato de Daniel Defoe sobre o Capitão Mission e a fundação de Libertália
pode ser, como muitos historiadores afirmam, uma fraude literária que
não pretendia senão propagandear as teorias radicais dos Whigs — se
bem que este relato estivesse inserido em The General History of the
Pyrates (1724—28), obra aceite na maior parte pela sua correcção e veracidade.
Para mais, a história do Capitão Mission não foi criticada aquando do
aparecimento do livro e muitos trabalhadores de Madagáscar eram ainda
vivos naquela altura. E parece que eles acreditaram, talvez por terem
conhecido enclaves piratas muito semelhantes a Libertália. Mais uma
vez, escravos resgatados, nativos e até inimigos tradicionais como os
Portugueses eram convidados a unir-se numa atmosfera de igualdade (os
ataques a navios negreiros eram uma grande preocupação da altura). A
terra era propriedade comum, elegiam-se representantes (mas os mandatos
eram curtos ), partilhavam-se os despojos dos assaltos; doutrinas libertárias
havia-as em circulação bem mais radicais do que aquelas em Common Sense
.
Libertália esperava perdurar, e Mission morreu defendendo-a. Contudo,
a maioria das utopias piratas pretendiam-se temporárias; de facto, as
verdadeiras “repúblicas” dos corsários eram os seus navios, que cortavam
as águas regulados por Artigos, ao passo que os enclaves costeiros não
conheciam lei alguma. O último exemplo clássico, que é Nassau, nas Bahamas,
uma autêntica estância de praia composta de cabanas e tendas onde os
habitantes dedicavam as suas atenções ao vinho, às mulheres (e aparentemente
também aos mancebos, a julgar por Sodomy and Piracy de Birge), à música
(os piratas eram grandes apreciadores de música e costumavam contratar
bandas para levar nas suas longas viagens), bem como ao excesso perverso,
Nassau que desapareceu da noite para o dia quando a frota Inglesa se
fez ver na Baía. Barba Negra e “Calico Jack” Rackham e a sua tripulação
de mulheres piratas deslocaram-se para costas mais selvagens e destinos
mais cruéis, ao mesmo tempo que outros aceitavam o Perdão real e se
reabilitavam. Mas a tradição Flibusteira perdurou, tanto em Madagáscar,
onde as crianças de sangue misto dos piratas começaram a definir reinos
seus, e nas Caraíbas, onde escravos fugidos bem como grupos mistos de
pretos/brancos/vermelhos puderam florescer nas montanhas e no meio do
mato para ficarem conhecidos como gente “Marrom” . A comunidade Marrom
na Jamaica ainda retinha um certo grau de autonomia e muitos dos seus
velhos costumes populares quando Zora Neale Hurston lá foi nos anos
20 (ver Tell my Horse). Os Marrom do Suriname ainda praticam o “paganismo”
Africano.
Durante o século XVIII, a América do Norte também produziu muitas comunidades
desistentes/separatistas , isoladas e tri-raciais (estes epítetos foram-lhes
apostos pelo movimento Eugénico, que levou a cabo os primeiros estudos
científicos destas sociedades. Infelizmente a “ciência” só serviu como
desculpa para o ódio aos de “raça impura” e aos pobres, sendo a “solução”
proposta para os “problemas” a esterilização compulsiva).
Estes núcleos eram constituídos invariavelmente por escravos fugidos
e trabalhadores quase-escravos, “criminosos” (i.e., indigentes), “prostitutas”
(i.e., mulheres brancas casadas com não-brancos), e membros de várias
tribos nativas. Em alguns casos, como aconteceu com os Seminoles e com
os Cherokee, a estrutura tribal tradicional absorveu os recém-chegados;
em outros, formaram-se novas tribos. Assim, temos os Marrom do Grande
Pântano Sinistro, que se mantiveram em pé nos sécs. XVIII e XIX, adoptando
escravos fugidos, funcionando como paragem temporária no Caminho de
Ferro Clandestino, um centro religioso e ideológico para as revoltas
de escravos. A religião era o Vodu/HooDoo/Vodun , uma mistura de elementos
nativos, Africanos e Cristãos, e de acordo com o historiador H. Leaming-Bey,
os anciães dessa fé bem como os líderes dos Grandes e Sinistros Marrom
eram conhecidos como The Seventh Finger High Glister.
Os Ramapaughs, do norte de New Jersey, incorrectamente conhecidos como
“Jackson Whites”, apresentam outra genealogia romântica composta dos
seguintes arquétipos: escravos libertos de patrões Holandeses, vários
clãs Delaware e Algonquin, as “prostitutas” do costume, os “Hessianos”
(chavão designando mercenários Britânicos perdidos, Loyalists desertores,
etc.), e bandos locais de bandidos socias como o bando de Claudius Smith.
Alguns grupos reclamam uma origem Afro-Islâmica, como é o caso dos Mouros
de Delaware e os Ben Ishmaels, que migraram do Kentucky para o Ohio
em meados do século XVIII. Os Ishmaels praticavam a poligamia, nunca
bebiam álcool, ganhavam a vida como instrumentistas, casavam-se com
Índios e adoptavam os seus costumes, estando tão entregues a uma vida
nómada que já construiam as casas com rodas. A sua migração anual descrevia
triângulos com vértices em cidades com nomes como Mecca e Medina. No
séculoXIX alguns deles abraçaram ideais anarquistas, tornando-se alvos,
por parte do movimento Eugénico, de um pogrom particularmente feroz,
a salvação-pela-extinção. Algumas das primeiras leis Eugénicas escreveram-se
em sua honra. Enquanto tribo, “desapareceram” nos anos 20, e o que é
mais provável é que tenham feito engrossar as fileiras dos primeiros
movimentos Islâmicos de Negros tal como o Moorish Science Temple. Eu
próprio cresci a ouvir as lendas sobre os “Kallikaks” dos New Jersey
Pine Barrens, que ficavam perto de mim (e cresci também com a presença
de Lovecraft, um racista ferrenho que mesmo assim se deixava fascinar
por aquelas comunidades isoladas). As lendas, afinal, não passam de
recordações populares das calúnias da Eugenia, que tinha o seu quartel
general em Vineland (New Jersey), a partir de onde se lançaram as habituais
“reformas” contra a “miscigenação” e a “debilidade mental” nos Barrens
(incluindo a publicação de fotografias dos Kallikaks, desastradamente
retocadas para os fazer parecer monstros nascidos de cruzamentos bestiais).
As “comunidades isoladas” — pelo menos, aquelas que preservam a sua
identidade no século XX — recusam sistematicamente a absorção quer pela
cultura do manistream oficial quer pela “subcultura” Negra na qual os
sociólogos modernos preferem enfiá-las. Na década de 70, inspirados
pela Renascença do Americano Nativo, um certo número de grupos, incluindo
os Ramapaughs e os Mouros, pediram ao o seu reconhecimento como tribos
Índias. Obtiveram o apoio de activistas nativos mas foi-lhes recusado
o status oficial. Afinal, se eles tivessem ganho, ter-se-ia estabelecido
um precedente perigoso e favorável a toda a espécie de “desistentes”,
desde os apreciadores brancos de Peyote e hippies aos nacionalistas
negros, aos arianos, anarquistas e libertários — reservas para toda
a gente! O “Projecto Europeu” não pode reconhecer a existência do Homem
Selvagem — o caos verde ainda é uma ameaça muito grande ao sonho imperial
de ordem.
Essencialmente, os Mouros e os Ramapaughs rejeitam a explicação “diacrónica”
ou Histórica das suas origens, a favor duma explicação “sincrónica”
da sua auto-imagem tendo por base o “mito” da adopção pelos Índios.
Ou, melhor dizendo, eles nomearam-se Índios. Se todos os que quisessem
ser Índios pudessem sê-lo através do simples acto da auto-definição
como tal, imaginam que partida para Croatan não seria. Essa velha sombra
oculta ainda assombra o que resta das nossas florestas (já que falamos
nisso, estas até têm aumentado no Nordeste desde os séculos. XVIII,
XIX com o abandono de grandes extensões de terras de cultivo. Thoreau,
no seu leito de morte, sonhava com o regresso de “…Índios… florestas…”,
é o regresso do recalcamento).
Os Mouros e os Rampaughs têm, é claro, boas razões materialistas para
se julgarem Índios — afinal, alguns dos seus antepassados são-no — mas
se virmos a sua auto-nomeação numa perspectiva ao mesmo tempo “mítica”
e histórica aprenderemos mais coisas que relevam na nossa busca da ZAP.
Dentro das sociedades tribais existe aquilo a que alguns antropólogos
chamam mannenbunden: sociedades totémicas dedicadas a uma identificação
com a “Natureza” através do acto da metamorfose, da transformação no
animal-totem (lobisomens, xamãs-jaguar, homens-leopardo, bruxas-gato,
etc.). No contexto de toda uma sociedade colonial (como o indica Taussig
em Shamanism, Colonialism and the Wild Man), o poder metamórfico é visto
como inerente à cultura nativa integral — assim, o sector mais reprimido
da sociedade adquire um poder paradoxal graças a mitos sobre o seu conhecimento
oculto, que o colono tanto teme como deseja. É óbvio que os nativos
têm algum conhecimento oculto; mas em resposta à percepção Imperial
da cultura nativa como espécie de “selva(jaria) espiritual”, os nativos
tendem a ver-se cada vez mais e conscientemente no papel de “espiritualmente
selvagens”.
À medida em que são marginalizados, a própria Margem ganha uma aura
mágica. Antes do homem branco, eles eram tão-somente tribos de pessoas;
agora, tornaram-se “guardiães da Natureza”, habitantes do “Estado Natural”.
Por fim, até o colono é seduzido por este “mito”. Quando um Americano
quer “desistir” e regressar à Natureza, “torna-se um Índio”. Os democratas
radicais do Massachusetts (descendentes espirituais dos Protestantes
radicais) que organizaram a Tea Party , que acreditavam literalmente
na possibilidade de abolição dos governos ( toda a região de Berkshire
se declarou “em Estado Natural!”), disfarçaram-se de Mohawks. Assim,
os colonos, que de súbito se viam marginalizados face à terra-mãe, adoptaram
o papel dos nativos marginalizados, por esse meio ( mas só de certa
forma ) procurando partilhar do seu poder oculto, do seu brilho mítico.
Desde os Mountain Men aos Escuteiros, o sonho da “transformação em Índio”
flui como um rio subterrâneo em várias correntes da História, da cultura
e da consciência Americanas.
A panóplia de imagens associada aos grupos “tri-raciais” também confirma
esta hipótese. Os “nativos” são obviamente imorais por sistema, mas
os renegados raciais e os párias devem ser mesmo polimorfos, mesmo perversos.
Os Corsários eram sodomitas, os Marrom e os Mountain Men eram dados
à miscigenação, os “Jukes e os Kallikaks” regalavam-se com a fornicação
e o incesto (levando a mutações como a polidactilia), os putos corriam
por aí todos nus e masturbavam-se à vista de toda a gente, etc., etc.
Aparentemente, com o “regresso à Natureza” começam a praticar-se toda
a espécie de actos contranatura; pelo menos é isso que parece, a acreditar
nos Puritanos e nos advogados da Eugenia. E já que muita gente em sociedades
moralistas, racistas e opressoras nutrem desejos secretos de fazer a
mesma coisa, decidem projectar essas acções nos marginais, convencendo-se
por esse meio de que continuam civilizados e puros. É um facto que algumas
comunidades marginalizadas rejeitam a moralidade consensual — como no
caso dos piratas! — e de facto concretizam alguns dos desejos reprimidos
da civilização ( não o farias também tu?). A transição para o “selvagem”
é sempre um acto erótico, de nudez.
Antes de abandonar o assunto dos “isolados tri-raciais”, gostaria de
recordar o entusiasmo de Nietzche pela “mistura das raças”. Impressionado
pelo vigor e pela beleza das culturas híbridas, ele oferecia a miscigenação
não só como solução para o problema da raça mas também como princípio
de uma nova humanidade liberta de chauvinismos étnicos e nacionais —
talvez uma solução precursora do “nomadismo psíquico”. O sonho de Nietzche
parece-nos tão remoto a nós como a ele. O chauvinismo ainda se dá muito
bem. Culturas mistas continuam submersas. Mas as zonas autónomas dos
Marrom e dos Corsários, Ishmaels e Mouros, Ramapaughs e “Kallikaks”
subsistem, ou pelos menos restam as suas histórias, como indicações
daquilo a que Nietzche poderia ter chamado “ A vontade de poder como
desaparecimento”. Devemos regressar a este tema.
A
MÚSICA COMO PRINCIPIO ORGANIZACIONAL
Entretanto,
focamos a história do anarquismo clássico à luz do conceito da ZAP.
Antes do “fecho do mapa”, houve uma boa porção de energia anti-autoritária
dirigida para comunas “evasivas” tal como a Modern Times , os vários
Falanstérios, e por aí adiante. É interessante notar que algumas delas
não estavam destinadas a durar “para sempre”, só enquanto o projecto
se mostrasse satisfatório. Pelos padrões Socialistas/Utópicos estas
experiências foram “fracassos”, por isso, pouco sabemos do assunto.
Quando a fuga para além-fronteiras se revela impossível, inaugura-se
na Europa a era das comunas urbanas revolucionárias. As Comunas de Paris,
Lião e Marselha não duraram bastante para adquirir traços de permanência,
e perguntamo-nos se isso não seria propositado. Do nosso ponto de vista,
o que é realmente fascinante é o espírito das comunas. Durante esses
anos e mesmo posteriormente, os anarquistas adoptaram a prática do nomadismo
revolucionário, vagueando de levantamento em levantamento, procurando
manter viva em si a intensidade de espírito que haviam experimentado
no momento da insurreição. De facto, alguns anarquistas Stirnerianos/Nietzcheanos
vieram a encarar esta actividade como um fim em si, um modo de ocupar
sempre uma zona autónoma, a interzona que se abre no meio da guerra
e da revolução (ver a “zona” em Gravity’s Rainbow de Thomas Pynchon).
Eles declararam que se alguma revolução socialista triunfasse, seriam
os primeiros a virar-se contra ela. Não pensavam em parar muito antes
de atingir a anarquia universal. Na Rússia, em 1917, saudaram os Sovietes
livres com alegria: era este o objectivo deles. Mas assim que os Bolcheviques
traíram a Revolução, os anarquistas individualistas foram os primeiros
a pôr-se em pé de guerra. É claro que depois de Kronstadt todos os anarquistas
condenaram a “União Soviética” (uma contradição nos termos) e partiram
em busca de novas insurreições.
A Ucrânia de Makhno e a Espanha anarquista pretendiam-se duradoiras,
e apesar das exigências de uma guerra imparável ambas tiveram sucesso
em certa medida: não que tenham durado “muito tempo”, mas a sua organização
era boa e teriam perdurado não fosse a agressão do exterior. Portanto,
dentre as experiências decorrentes entre as duas Guerras Mundiais, concentrar-me-ei
na República leviana de Fiume, que é muito mal conhecida, e que ninguém
estava interessado em fazer perdurar.
Gabriele D’Anunzio, poeta Decadentista, artista, músico, esteta, mulherengo,
aeronauta pioneiro e aventuroso, mago negro, génio e fingidor, saiu
da Primeira Guerra Mundial um herói, com um pequeno exército às suas
ordens: os “Arditi”. Sem aventuras que se lhe apresentassem, decidiu
capturar a cidade de Fiume à Jugoslávia e dá-la à Itália. Após uma cerimónia
necromântica com a sua amante num cemitério Veneziano pôs-se a caminho
de Fiume, conquistando-a sem dificuldades de maior. Mas a Itália recusou
a sua generosa oferta; o primeiro ministro chamou-lhe doido.
Num repente, D’Annunzio decidiu declarar a independência e ver quanto
tempo se aguentaria. Escreveu a Constituição com um seu amigo anarquista,
declarando a música como princípio central do Estado. A Marinha (composta
de desertores e sindicalistas marítimos de Milão) tomou o nome de Uscochi,
em honra dos piratas assim chamados que haviam vivido em ilhas da zona
e atacavam navios Otomanos e Venezianos. Os novos Uscochi até realizaram
alguns feitos espectaculares: vários navios mercantes italianos subitamente
garantiam algum futuro para a República: há dinheiro nos cofres! Artistas,
boémios, aventureiros, anarquistas (D’Annunzio correspondia-se com Malatesta),
fugitivos e refugiados apátridas, homossexuais, dândis militares (o
uniforme era negro com uma caveira e ossos cruzados em baixo — mais
tarde o motivo foi roubado pelos SS) e fanáticos reformistas de toda
o género (Budistas, Teósofos, Vedantistas) começaram a apinhar-se em
Fiume. A festa nunca mais acabava. Todas as manhãs D’Annunzio lia poesia
e manifestos da sua varanda; todas as noites havia um concerto, e depois
fogos de artifício. Isto constituía toda a actividade do governo. 18
meses depois, já sem dinheiro e sem vinho, ninguém resistiu quando a
frota Italiana apareceu — por fim! — e dispensou uns quantos tiros ao
palácio municipal.
D’Annunzio, como muitos outros anarquistas Italianos, inclinou-se mais
tarde para o fascismo — na verdade, Mussolini (o ex-Sindicalista) em
pessoa seduziu o poeta por forma a que ele tomasse esse caminho. Ao
perceber que tinha errado, era tarde de mais para D’Annunzio, era já
um velho doente. Mas o Duce matou-o na mesma, fê-lo cair de uma varanda,
transformando-o num “mártir”. Quanto a Fiume, embora a experiência não
fosse tão séria como as da Ucrânia e de Barcelona, pode provavelmente
ensinar-nos mais sobre certos aspectos da nossa demanda. De certo modo,
foi a última das utopias piratas (ou o seu único exemplo moderno) —
e noutro sentido, quase chegou a ser a primeira ZAP moderna.
Acredito que comparando Fiume com o levantamento Parisiense de 1968
(e com as insurreições urbanas na Itália do princípio dos anos setenta),
bem como com as comunas contra-culturais Americanas e as suas influências
Anarco-Nova Esquerda, notamos certas semelhanças, tais como: — a importância
da teoria estética (cf. Os Situacionistas) — também se vê aquilo a que
se poderia chamar “economia pirata”, a boa vida sustentada pelo excedente
da produção social — até a popularidade de uniformes militares coloridos
— o conceito da música como mudança social revolucionária – e finalmente,
a atmosfera ubíqua de impermanência, a capacidade de deslocação, de
mudar de forma, de encontrar lugar noutras universidades, cumes montanhosos,
guetos, fábricas, bunkers, quintas abandonadas — ou até outros planos
da realidade. Ninguém estava interessado em impôr mais uma Ditadura
Revolucionária quer em Fiume, quer em Paris ou Millbrook. O mundo muda
ou não. Quer mude quer não mude, continuamos a movimentar-nos e a viver
intensamente.
O Soviete de Munique (ou “República de Conselho”) de 1919 exibia certos
traços da ZAP, mesmo que, como acontece na maior parte das revoluções,
o seu programa pretendesse ser algo mais que temporário. A participação
de Gustav Landauer como Ministro da Cultura ao lado de Silvio Gesell
como Ministro da Economia e outros socialistas libertários, anti-autoritários
radicais tais como os poetas/dramaturgos Erich Mªhsam e Ernst Toller,
e Ret Marut (o romancista B. Traven), deu a este Soviete um sabor distintamente
anarquista. Landauer, que tinha passado anos isolado a trabalhar na
sua grandiosa síntese de Nietzche, Proudhon, Kropotkin, Stirner, Meister
Eckhardt, dos místicos radicais e dos filósofos populares Românticos,
sabia desde o princípio que o Soviete estava condenado ao fracasso;
tudo o que ele esperava é que durasse tempo suficiente para que o entendessem.
Kurt Eisner, fundador martirizado do Soviete, acreditava num sentido
bem literal que os poetas e a poesia deviam formar a base da revolução.
Puseram-se em marcha planos para criar numa parte da Baviera uma economia
e uma comunidade anarco-socialistas. Landauer apresentou propostas de
formação de um sistema escolar livre e um Teatro do Povo. A base de
apoio do Soviete estava mais ou menos limitada aos bairros boémios e
de classe trabalhadora mais pobres de Munique, e a grupos como o Wandervogel
(o movimento juvenil neo-Romântico), radicais Judaicos (como Buber),
os Expressionistas, e outros marginais. Por isso, os historiadores desdenham-no,
chamando-lhe “A República dos Cafés”, e consideram-no de pequena importância
em comparação com as participações Marxista e Spartakista na(s) revolução(ões)
do pós-guerra Alemão. Ultrapassado em táctica pelos Comunistas e por
fim assassinado por soldados debaixo da influência da sociedade Ocultista/Fascista
Thule, Landauer merece ser recordado como um santo. Contudo, mesmo anarquistas
de hoje tendem a compreedê-lo mal e a atacá-lo “por se ter vendido a
um governo socialista”. Se o Soviete tivesse durado pelo menos um ano,
choraríamos só de lembrar a sua beleza — mas ainda antes que murchassem
as primeiras flores daquela Primavera, o geist e o espírito da poesia
foram esmagados, e nós esquecemo-nos. Imaginem como não seria respirar
o ar de uma cidade em que o ministro da cultura prevê que dentro em
breve as crianças hão-de memorizar as palavras de Walt Whitman. Ah,
quem nos dera uma máquina do tempo…
A
VONTADE DE PODER COMO DESPARECIMENTO
Foucault,
Baudrillard, e outros, discutiram extensamente vários modos de “desaparecimento”.
Sugiro aqui, que a ZAP é de certa forma, uma táctica de desaparecimento.
Quando os teóricos falam do desaparecimento do Social estão a postular
em parte a impossibilidade da “Revolução Social”, e em parte a impossibilidade
do “Estado” — o abismo de poder, o fim do discurso do poder. A questão
anarquista neste caso devia ser: porquê darmo-nos ao trabalho de enfrentar
um “poder” que perdeu todo o significado e se tornou mera Simulação?
Tais confrontos terão como único resultado feios e perigosos espasmos
de violência por parte dos zombis-miolos-de-caca que herdaram as chaves
dos arsenais e das prisões (talvez isto seja uma má interpretação Americana
da sublime e subtil Teoria Franco-Germânica. Se é assim, está bem; quem
disse que era preciso compreender uma ideia para a usar?).
Partindo da leitura que eu faço sobre o “desaparecimento”, este parece-me
uma opção radical muito lógica para o nosso tempo, não é nem morte nem
catástrofe para o projecto radical. Ao contrário da interpretação mórbida
e niilista da Teoria, a minha pretende miná-la para obter estratégias
úteis na imparável “revolução da vida quotidiana”: a luta que não pode
parar mesmo em face do último falhanço da revolução política ou social
porque nada, a não ser o fim do mundo, pode deter a vida quotidiana,
ou o nosso desejo de coisas boas, a nossa aspiração pelo Maravilhoso.
E como disse Nietzche, se o mundo pudesse acabar, então, logicamente,
já o teria feito; mas não o fez, por isso não acaba. E assim, como disse
um dos sufis, não importa quantos tragos do vinho proibido possamos
beber, para sempre carregaremos connosco esta sede furiosa.
Zerzan e Black notaram independentemente certos “elementos de recusa”
(a expressão é de Zerzan) que talvez possam ser vistos como sintomáticos
de uma cultura radical do desaparecimento, parte consciente, parte inconsciente,
que influencia mais gente do que qualquer ideia esquerdista ou anarquista.
Estes gestos são contra as instituições, e nesse sentido são “negativos”
— mas cada gesto negativo sugere uma táctica “positiva” para substituir,
e não só recusar, a instituição desprezada .
Por exemplo, o gesto negativo contra a educação escolar é a “iliteracia
voluntária”. Uma vez que não partilho da adoração liberal da literacia
como ferramenta de melhoria social, não me identifico com os sobressaltos
de receio que se fazem ouvir por todo o lado quando se trata deste fenómeno:
até compreendo as criancinhas que recusam os livros e o lixo que está
lá dentro. Mas há alternativas positivas que usam a mesma energia do
desaparecimento. A educação em casa e a aprendizagem de ofícios manuais
resultam numa ausência da prisão que é a escola. O “Hacking” é outra
forma de educação com certas características de invisibilidade.
Um gesto negativo em larga escala contra a política é simplesmente não
votar. A “Apatia” (i.e., tédio salutar em relação ao Espectáculo fatigante)
mantém meia nação longe das urnas: o anarquismo nunca conseguiu tanto!
(E nem teve nada a ver com o falhanço do recente Censo) Mais uma vez,
há paralelismos positivos: o estabelecimento de redes como alternativa
à política é coisa que já se faz em muitos níveis sociais, e as organizações
não-hierárquicas granjearam altos graus de popularidade mesmo fora do
movimento anarquista, simplesmente porque funciona (Act Up e Earth First!
— são dois exemplos. Estranhamente, os Alcoólicos Anónimos também são).
A recusa do trabalho pode tomar as formas de absentismo, de embriaguez
no local de trabalho, de sabotagem, de total falta de atenção — como
também pode dar origem a novas formas de rebelião: mais auto-emprego,
participação na “economia negra” e “lavoro nero”, fraudes com o fundo
de desemprego, outras opções criminosas, cultivar erva, etc. — tudo
acções mais ou menos invisíveis se comparadas com as tácticas tradicionais
de confronto dos esquerdistas, como a greve geral.
Recusar a igreja? Talvez aqui o gesto negativo seja… ver televisão.
Mas as alternativas positivas incluem todas as formas não-autoritárias
de espiritualidade, desde a cristandade “sem igreja” ao neo-paganismo.
As “religiões livres”, como eu gosto de lhes chamar — pequenas, criadas
por si próprias, metade a sério metade a brincar, influenciadas por
cultos tão marginais como o Discordianismo e o Anarco-Taoísmo — encontram-se
por toda essa América marginal, oferecendo uma “Quarta Via” florescente,
alternativa às grandes igrejas, aos televangelistas fanáticos e à monotonia
e consumismo da New Age. Pode-se também dizer que a grande recusa da
ortodoxia consiste na construção de “moralidades privadas” no sentido
Nietzcheano: a espiritualidade de “espíritos livres”.
A recusa negativa do lar é ser-se um desalojado, que muitos consideram
uma forma de se tornarem vítimas, não desejando abraçar a nomadologia
pela força. Mas não ter um lar pode de certa forma ser uma virtude,
uma aventura — pelo menos assim parece ao grande movimento internacional
dos Squatters.
A recusa negativa da Família é claramente o divórcio, ou outro qualquer
sintoma de rotura. A alternativa positiva advém da conclusão de que
a vida pode ser mais feliz sem a família nuclear, florescendo depois
um milhar de novos rebentos: desde pais solteiros a casamentos grupais
a grupos de afinidade erótica. O “Projecto Europeu” luta com unhas e
dentes para defender a “Família” — há misérias Edipianas no coração
do controlo. Existem alternativas — mas devem manter-se invisíveis,
principalmente depois da Guerra Anti-Sexo das décadas de 80 e 90.
O que é recusar a Arte? O gesto negativo não se encontra no niilismo
pateta de uma “greve de Arte” ou na desfiguração de uma pintura famosa
– vê-se bem nos olhos de peixe com que ficam as pessoas que tão-somente
ouvem a palavra. Mas em que consistiria o gesto positivo? É possível
imaginar uma estética que não se comprometa, que não se envolva, que
se retire da História e mesmo do Mercado? Ou que pelo menos se dirija
para aí? Que queira substituir a representação pela presença? Como se
faz sentir a presença na representação ou através dela?
A “Linguística do Caos” segue uma presença que está em contínuo desaparecimento
de todas as ordens da linguagem e sistemas de significado; uma presença
inapreensível, evanescente, latif (“subtil”, termo da alquimia Sufi)
— o Magnetismo Estranho à volta do qual se congregam informações, formando
caoticamente novas ordens espontâneas. Aqui temos uma estética da fronteira
entre Caos e Ordem, a margem, a área de calamidade onde a avaria do
sistema pode equivaler à iluminação. (para uma explicação da “Linguística
do caos”, ver Apêndice A, e depois ler este parágrafo outra vez.)
O desaparecimento do artista é “a supressão e a realização da arte”,
em termos situacionistas. Mas desaparecemos de onde? E nunca mais damos
notícias? Vamos para Croatan — qual o nosso destino? Toda a nossa arte
não passa de um bilhete de despedida endereçado à História — “Idos para
Croatan” — mas onde fica, e o que é que vamos lá fazer?
Em primeiro lugar: não falamos aqui de um desaparecimento literal do
mundo e do futuro; de uma fuga no tempo até uma “sociedade de lazer
originária” do Paleolítico; de nenhuma utopia eterna, nenhum esconderijo
numa montanha remota, nenhuma ilha; nem de uma utopia pós-Revolucionária
— o mais provável é nem haver Revolução nenhuma! — nem de Vonu, nem
de Estações Espaciais Anarquistas; nem aceitamos um desaparecimento
“Baudrillardiano” no silêncio de uma hiperconformidade irónica.
Não discordo com qualquer Rimbaud que escape à Arte fugindo para a Abissínia
mais próxima. Mas não podemos construir uma estética, mesmo uma estética
do desaparecimento, sobre o simples acto de nunca mais voltar. Afirmando
que não somos uma vanguarda e que não existe uma vanguarda, já escrevemos
o nosso “Idos para Croatan”; a questão então é: como conceber a vida
quotidiana em Croatan? Especialmente se não pudermos dizer que existe
no Tempo (Idade da Pedra ou Pós-Revolução) ou no Espaço, quer como utopia,
quer como cidadezinha esquecida do Midwest, quer como Abissínia? Onde
e quando existe o mundo da criatividade sem mediação? Se pode existir,
então existe — quiçá só como espécie de realidade alternativa que ainda
não nos habituámos a perceber. Onde procurar as sementes (as ervas daninhas
emergindo nas fendas das calçadas) daquele mundo, que pudéssemos plantar
neste? As pistas, as indicações certas para a busca? Um dedo que aponte
para a lua?
Eu creio, ou pelo menos gostaria de propôr, que a única solução para
a “supressão e realização” da Arte está na emergência da ZAP. Rejeito
veementemente a crítica de que a ZAP não passa de uma obra de arte,
embora possa ter alguns dos traços de uma. O que eu sugiro é que a ZAP
é o único espaço-tempo em que a arte pode acontecer pelo puro prazer
do jogo criativo, e como contribuição autêntica para as forças que permitem
à ZAP que ganhe coerência e se manifeste.
A Arte no mundo da Arte tornou-se um bem de consumo; mas mais fundo
que esse problema está o da própria re-presentação e a recusa de toda
a mediação. Na ZAP será impossível a arte tornar-se um bem de consumo,
será antes um pré-requisito para a vida. A mediação é mais difícil de
vencer, mas a remoção de todas as barreiras entre artistas e “utilizadores”
da arte fará com que mais tarde ou mais cedo (como o disse A.K. Coomaraswamy)
“O artista não seja um tipo especial de pessoa mas toda a pessoa seja
um tipo especial de artista.”
Em suma: o desaparecimento não é necessariamente uma catástrofe — excepto
no sentido matemático de “mudança topológica súbita”. Todos os gestos
positivos aqui esboçados parecem exigir diferentes graus de invisibilidade,
mais do que o confronto revolucionário tradicional. A “Nova Esquerda”,
a falar verdade, nunca acreditou que existia até se ver no noticiário
da noite. A Nova Autonomia, em constraste, ou se vai infiltrar nos media
e subvertê-los por dentro, ou nunca vai ser vista. A ZAP existe não
só para além do Controlo como também para além das definições, para
além do olhar e da nomeação como actos conducentes à escravatura, para
além da compreensão do Estado, para além da capacidade de ver do Estado.
TOCAS
DE RATO NA BABLÓNIA INFORMATIVA
A
ZAP como forma consciente de táctica radical terá a sua emergência nas
seguintes condições:
1.
Libertação psicológica. Ou seja, devemos perceber os momentos e espaços
nos quais a
liberdade é não só possível como real. Devemos saber de que forma somos
genuinamente oprimidos, e de que forma nos auto-reprimimos ou estamos
emaranhados numa fantasia em que as ideias nos oprimem. O Trabalho,
por exemplo, é uma fonte de infelicidade para muitos de nós, muito mais
do que qualquer política legislativa. A alienação é para nós mais perigosa
do que ideologias desdentadas, ultrapassadas, moribundas. Estar mentalmente
viciado em “ideais” — que de facto não são senão meras projecções das
nossas irritações e das nossas sensações de frustração — nunca há-de
dar livre curso ao nosso projecto. A ZAP não serve de arauto a uma maravilhosa
Utopia Socialista à qual devemos oferecer as nossas vidas em sacrifício
para que os filhos dos nossos filhos possam respirar uma lufada de ar
livre. A ZAP deve ser a cena da nossa autonomia presente, mas só pode
existir na condição de nos sabermos seres livres.
2. A Contra-Rede deve expandir-se. Por enquanto é mais uma abstracção
do que uma
realidade concreta. As Zines e as BBS trocam informação, o que é parte
vital dos alicerces da ZAP, mas muito pouca desta informação se prende
com bens e serviços concretos que são necessários à vida autónoma. Não
vivemos no CiberEspaço; sonhar que sim é cair numa CiberGnose, a falsa
transcendência do corpo. A ZAP é um lugar físico e ou lá estamos ou
não. Todos os sentidos se devem empregar. A Teia é como um sexto sentido
às vezes, mas deve-se usar em conjunto com todos os outros — os outros
também não devem alienar-se dela, como numa paródia horrorosa do transe
místico. Sem a Teia, a realização completa do complexo-ZAP seria impossível.
Mas a Teia não é um fim em si, é uma arma.
3. O aparelho de Controlo — o “Estado” — deve (assumamo-lo) continuar
a deliquescer e a
petrificar-se em simultâneo, deve continuar na presente rota, em que
uma rigidez histérica serve só para mascarar uma vacuidade, um abismo
de poder. À medida que o poder “desaparece”, a nossa vontade de poder
deve ser o desaparecimento.
Já lidámos com o facto de a ZAP ser vista, ou não, como “mera obra de
arte”. Mas vocês também quererão saber se não passa de uma pobre toca
de rato na Babilónia Informativa, ou antes um labirinto de túneis, mais
e mais interligados, mas servindo apenas a causa do beco sem saída que
é o parasitismo pirata? A minha resposta é: prefiro ser um rato por
detrás da parede a ser um rato numa jaula — mas também devo insistir
nisto: a ZAP transcende estas categorias.
Um mundo no qual a ZAP consiga enraízar-se pode-se parecer com o mundo
visto por “P.M.” no seu romance de fantasia bolo’bolo. Talvez a ZAP
seja um “proto-bolo”. Mas na medida em que a ZAP existe agora, representa
muito mais do que uma negatividade mundana ou um estado de espírito
de desistência contra-cultural. Já mencionámos o aspecto festivo do
momento que não é controlado, que se auto-organiza espontaneamente,
mesmo que dure pouco tempo. É uma espécie de epifania — um auge da experiência
social e individual.
A Libertação realiza-se com a luta: esta é a essência do “triunfo sobre
nós mesmos” de Nietzche. A presente tese toma a vagabundagem de Nietzche
como um sinal. É o conceito percursor da deriva, no sentido situacionista
e da definição de Lyotard do trabalho-à-deriva. Podemos prever toda
uma nova geografia, um possível mapa de peregrinações no qual os locais
sagrados são substituídos por auges experienciais e ZAPs: uma verdadeira
psicotopografia, a que pudéssemos chamar “geo-autonomia” ou “anarcomancia”.
A ZAP pede alguma bestialidade, uma evolução, do domesticado ao selvagem,
um “regresso” que também é um passo em frente. Pede também um “yoga”
do caos, um projecto de “ordens mais altas” (de consciência, ou simplesmente
da vida), do qual nos podemos aproximar “surfando na crista da onda
do caos”, do dinamismo complexo. A ZAP é a arte da vida em levantamento
constante, selvagem mas gentil — sedutores sim, violadores não, contrabandistas
em vez de piratas sanguinários, dançarinos em vez de escatologistas.
Admitamos que temos ido a festas onde por uma noite breve se atingiu
uma República de desejos satisfeitos. Não seremos forçados a confessar
que a política dessa noite tinha mais realidade e força do que, vamos
lá, o governo Americano inteiro? Algumas das “festas” que referimos
duraram dois ou três anos. Não valerá a pena imaginar isto e lutar por
isto? Estudemos a invisibilidade, a Teia, o nomadismo psíquico — e quem
sabe aonde chegaremos?
—
Equinócio de Primavera, 1990
Apêndice A. A Linguística do Caos
Ainda
não é uma ciência, mas é uma proposta: certos problemas da linguística
podem ser resolvidos vendo a linguagem como um dinâmico “Campo Caótico”.
De todas as respostas à Linguística de Saussure, duas têm aqui especial
interesse: a primeira é a “Anti-Linguística”, cuja origem no período
moderno se pode detectar na partida de Rimbaud para a Abissínia; na
declaração de Nietzche: “receio bem que enquanto tivermos uma gramática
não teremos bem morto Deus”; no movimento Dada; quando Korzybski diz
que “o Mapa não é o Território”; na técnica dos cortes de W.S. Burroughs
e a sua fabulosa “descoberta no Quarto Cinzento”; no ataque de Zerzan
à própria linguagem como representação e mediação.
A segunda é a Linguística de Chomsky, com a sua crença numa “gramática
universal” e os seus diagramas em árvore, representando, creio eu, uma
tentativa de “salvar” a linguagem ao descobrir “invariáveis ocultas”,
do mesmo modo que certos cientistas tentam agora “salvar” a Física da
“irracionalidade” da Mecânica Quântica. Embora como anarquista fosse
de esperar que Chomsky tomasse o partido dos niilistas, a verdade é
que a sua bela teoria tem mais em comum com Platonismo ou Sufismo do
que com Anarquismo. A metafísica tradicional descreve a linguagem como
pura luz brilhando refractada pelo vidro colorido dos arquétipos; Chomsky
fala de “gramáticas inatas”. As palavras são folhas, os ramos são frases,
línguas-mãe são ramos mais grossos, famílias de línguas são troncos,
as raízes…? … Estão no céu… ou no ADN. A isto eu chamo “Hermetalinguística”
— é hermética e metafísica. O Niilismo (ou “Metalinguística Pesada”
em honra de Burroughs) parece-me ter conduzido a linguagem a um beco
sem saída, ameaçando torná-la “impossível” (um grande feito mas um tanto
deprimente) — enquanto que Chomsky sustenta a promessa e a esperança
de conseguir uma revelação de última hora, coisa que acho igualmente
difícil de aceitar. Eu também gostaria de “salvar” a linguagem, mas
sem recorrer a nenhuns “Papões” ou supostas regras imaginárias sobre
Deus, dados e Universo .
Voltando a Saussure, mais os seus apontamentos póstumos sobre os anagramas
na poesia Latina, encontramos indícios de um processo que de certo modo
escapa à dinâmica signo/significante. Saussure teve de enfrentar a sugestão
de uma espécie de “meta”-Linguística que ocorre no interior da linguagem
em vez de ser imposta como imperativo categórico do exterior. Logo que
a linguagem começa a jogar, como faz nos poemas acrósticos que ele examinou,
parece ressoar com uma complexidade que se aumenta a si própria. Saussure
tentou quantificar os anagramas, mas os seus números fugiam-lhe constantemente
(como se estivessem envolvidas equações não-lineares). E depois também
começou a encontrar anagramas em todo o lado, mesmo na prosa Latina.
Interrogou-se sobre a possibilidade de já estar a alucinar — ou se os
anagramas não seriam um processo natural e inconsciente da parole .
E abandonou o projecto.
Pergunto-me: se processássemos muitos dados desta qualidade através
de um computador, não seríamos capazes de construir modelos da linguagem
em termos de sistemas dinâmicos complexos? As gramáticas não seriam
então inatas, mas surgiriam do Caos como “ordens superiores” capazes
de uma evolução espontânea, com um comportamento semelhante ao sentido
que Prigogine dá à expressão “evolução criativa”. As gramáticas podiam
ser pensadas como “magnetismos estranhos”, como o padrão oculto que
daria origem aos anagramas-padrão que são “reais” mas só existem na
medida em que manifestam sub-padrões. Se o sentido/significado é difícil
de definir, talvez o seja porque a própria consciência e a linguagem
em consequência , são fractais.
Acho esta teoria mais satisfatoriamente anarquista do que a anti-Linguística
ou do que que o Chomskyanismo. Ela sugere que a linguagem pode vencer
a representação e a mediação, não por ser inata, mas por ser Caos. Assim
poderíamos argumentar que toda a experimentação dadaísta ( Feyerabend
descreve a sua escola de epistemologia científica como “Dada anarquista”)
com a poesia do som, com os gestos, com os recortes, com as linguagens
bestiais, etc., não se destinava a destruir ou descobrir significados
mas a criá-los. O Niilismo aponta tristemente para o facto da criação
“arbitrária” do significado pela linguagem. A Linguística do Caos concorda
com entusiasmo, acrescentando porém que a linguagem pode vencer-se a
si mesma, que pode criar liberdade no meio da confusão e decadência
da tirania semântica.
Apêndice
B. O Hedonismo em prática
O
grupo de Bonnot era constituído por vegetarianos que só bebiam água.
Conheceram um fim trágico, mesmo que pitoresco. Legumes e água, que
por si só são coisas excelentes — puro zen, na verdade — não deviam
tomar-se como forma de martírio, e sim como uma forma de epifania. A
negação do Eu como praxis radical, o impulso dos Levellers, tem um gosto
a depressão milenar — e esta corrente da Esquerda partilha da mesma
fonte Histórica que o neo-puritanismo fundamentalista e a reacção moralizante
da nossa década. A Nova ascese, quer seja praticada por tarados da saúde,
sociólogos policiais de lábios finos, niilistas straight-edge da Baixa,
fascistas Baptistas saloios, torpedos socialistas, Republicanos-livres-de-drogas…
em todos os casos a força motivante é o ressentimento.
Enfrentando a hipocrisia da anestesia contemporânea, vamos erigir uma
galeria de “antepassados”, heróis que continuaram a lutar contra a má
consciência mas que não deixavam de lado o espírito festivo, um grupo
genético genial, uma categoria rara e difícil de definir, grandes cabeças
não só para a verdade mas também para a verdade do prazer, sérios mas
não sóbrios, gente cuja disposição luminosa não os torna lesmas mas
autênticas lâminas cortantes, brilhantes sem estar atormentados. Imaginem
um Nietzche sem problemas digestivos. Nem os tépidos Epicuristas nem
os Sibaritas inchados. Um tipo de hedonismo espiritual, um Caminho do
Prazer, a visão de uma boa vida que é nobre e possível, tendo as suas
raízes num sentimento profundo da magnífica sobre-abundância da realidade.
O
Sheik Abu Sa’id do Khorassan
Charles Fourier
Brillat-Savarin
Rabelais
Abu Nuwas
Aga Khan III
R. Vaneigem
Oscar Wilde
Omar Khayyam
Sir Richard Burton
Emma Goldman
Junta os teus preferidos à lista...
Apêndice
C. Outras Citações
Naquilo que nos toca, Ele destacou-nos para sermos desempregados permanentes.
Afinal, se nos quisesse para trabalhar,
não teria criado tal vinho!
Com um odre cheio dele, Senhor,
correrias por aí a perpetrar Economia?
— Jalaloddin Rumi, Diwan-e Shams
Aqui com um pão debaixo do ramo da Árvore,
uma jarra de vinho, um livro de versos — e Tu
que a meu lado cantas no bosque selvagem…
o bosque selvagem basta como Paraíso.
Ah, Amor, enche o cálice que lava o Hoje
do arrependimento de Ontem, do medo de Amanhã —
Amanhã? — Ora, nessa altura posso estar
com os Sete mil anos de Ontem.
Ah, Amor! Pudéssemos nós com o Destino conspirar
para capturar o triste Modelo de Todas as Coisas,
para o partir em pedaços — e depois
refazê-lo,
mais próximo dos desejos do coração!
— Omar Fitzgerald
A
História, o materialismo, o monismo, o positivismo e todos os outros
“ismos” do mundo estão velhos e ferrugentos como ferramentas de que
já não preciso nem me lembro. O meu princípio é a vida, o meu fim é
a morte. Quero viver a minha vida intensamente para tragicamente a aproveitar.
Esperas pela revolução? A minha há muito que começou! Quando estiveres
pronto (Caramba, como se espera!) não me importo de te fazer alguma
companhia. Mas quando parares, continuarei no meu caminho louco e triunfal,
que me leva à grande e sublime conquista do Nada! Qualquer sociedade
que construas terá limites. Fora dos limites de toda a sociedade os
insubmissos e os heróicos vaguearão, com os seus pensamentos selvagens
e virginais — esses que não conseguem viver sem planear terríveis deflagrações
rebeldes!
Eu lá estarei!
E depois de mim como antes de mim haverá aqueles que aos seus pares
dizem : “ Olhai para vós em vez de olhardes para Deuses e ídolos. Descobri
o que há de escondido em vós; exponde-o à luz: revelai-vos!”
Porque toda a pessoa que procura na sua alma e de lá extrai o que andava
misteriosamente escondido é uma sombra que causa um eclipse em qualquer
forma de sociedade que exista debaixo do sol! Todas as sociedades tremem
quando a aristocracia escarninha dos vagabundos, dos inacessíveis, dos
únicos, dos governantes do ideal, dos conquistadores do nada, avança
resolutamente.
Vinde, iconoclastas!
“Já os céus agoirentos se aquietam e escurecem!”
— Renzo Novatore Arcola, Janeiro de 1920
Divagação Pirata
O
Capitão Bellamy
Daniel
Defoe, com o pseudónimo de Capitão Charles Johnson, escreveu o primeiro
texto de referência sobre os piratas, A General History of the Robberies
and Murders of the Most Notorious Pirates. De acordo com o Jolly Roger
de Patrick Pringle, o recrutamento de piratas ocorria mais frequentemente
entre desempregados, servos foragidos e criminosos aguardando a deportação.
O alto mar imediatamente liquidava desigualdades de classe. Defoe conta-nos
que um pirata chamado capitão
Bellamy fez este discurso ao capitão de um navio mercante que havia
capturado. Este capitão recusara uma oferta para se juntar aos piratas.
“Lamento imenso, mas não vos restituirei o vosso barco, pois detesto
prejudicar alguém quando não há nisso vantagem para mim; maldito seja,
temos de afundá-lo, mesmo que vos seja útil. E vós sois um cachorrinho
sorrateiro, como são todos aqueles que se submetem às leis dos ricos
escritas para sua segurança, e nunca a dos outros. Os poltrões não têm
coragem de defender doutra maneira aquilo que obtiveram por vigarice;
mas sede vós mesmos malditos com eles: malditos sejam eles, essa matilha
de velhacos manhosos, e vós, que os servis, sois um bando de imbecis
e miolos-de-galinha. Eles difamam-nos, oh sim, quando a única coisa
que nos distingue é que eles roubam os pobres a coberto da Lei, nós
saqueamos os ricos, protegidos só pela nossa coragem. Não estaríeis
melhor entre as nossas fileiras do que a mendigar emprego junto desses
vilões?”
E quando o capitão replicou que a sua consciência nunca lhe permitiria
violar as leis de Deus e do homen, Bellamy prosseguiu:
“Vós sois um patife de consciência infernal, eu sou um príncipe livre,
e tenho tanta autoridade para combater o mundo inteiro como aquele que
possui cem velas no mar, mais um exército de cem mil homens em terra;
e é isto que me diz a minha consciência: mas não se pode argumentar
com tais cachorros ranhosos, que permitem aos seus superiores todos
os pontapés que lhes bem apetecer.”
O
Jantar de Convívio
A
mais alta ordem da sociedade humana encontra-se no salão. Nas reuniões
elegantes e refinadas das classes aristocráticas não existe a interferência
impertinente da legislação. Admite-se perfeitamente a individualidade
de cada um. Logo, o interrelacionamento é perfeitamente livre. Conversa-se
continuamente, brilhantemente, e de muita coisa.
Formam-se grupos de acordo com a atracção. Estes dispersam-se continuamente,
e reformam-se debaixo da mesma influência subtil, que tudo permeia.
A deferência mútua permeia todas as classes, e a mais perfeita harmonia
alguma vez atingida nas complexas relações humanas mantém-se nas mesmas
circunstâncias que Legisladores e Homens de Estado temem como condições
de inevitável anarquia e confusão. Se há leis de etiqueta algumas, são
meras sugestões de princípios interiorizados por cada mente individual.
É concebível que em todo o progresso futuro da humanidade, com os inumeráveis
elementos de desenvolvimento que se revelam nesta época, a sociedade,
em todas as suas relações, não atinja um grau de perfeição equivalente
ao que certas porções de si mesma, em certas relações especiais, já
atingiram?
Suponhamos que as interacções verificadas no salão são reguladas por
legislação específica. Que o tempo que cada cavalheiro dispõe para falar
a cada senhora é fixo por dada lei; que os seus lugares sentados ou
de pé são precisamente regulados; os assuntos de que podem falar, bem
como o tom de voz e gestos de acompanhamento com que cada um deve ser
tratado, são cuidadosamente definidos, e tudo isto para prevenir a desordem
e a violação dos direitos e privilégios dos outros. Poderíamos imaginar
melhor maneira de converter a interacção social numa escravatura intolerável
e uma confusão desesperante?
– S. Pearl
Andrews, The Science of Society
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